05 June 2008

Almoçar sozinha... ou a arte de ouvir a conversa dos outros.

Nem sempre foi assim, mas atualmente eu sou uma ótima companhia para mim mesma. Adooouro pessoas por perto, curto filha, marido, amigos, casa cheia, etc. Mas sei aproveitar bem os momentos que tenho sozinha.

Raramente almoço fora de casa, por causa da rotina clariceana todas as manhãs. Hoje, a rotina inverteu. Mah-rido está trabalhando à noite, mandei a bebê pra escola cedinho, fui trabalhar durante o dia e tive uma horinha completinha para almoçar com calma das 13h às 14h. Normalmente, almoço às 11h30. (uma merda)

Tudo isso pra dizer que me joguei num japa, para aproveitar em grande estilo estas horas raras. Fui sozinha e feliz da vida. Há alguns anos, isso seria um teste do Bope pra mim. Agora não. Ser solitária é diferente de ser sozinha. Hoje eu fui sozinha.

Esses momentos são riquíssimos para uma atividade pouco celebrada pelos especialistas em etiqueta social, da qual sou fiel praticante: ouvir a conversa dos outros. Ao contrário do que se pensa, essa prática requer certo traquejo: não dá pra encarar os conversadores, senão eles vão te olhar com cara de "nunca viu, não, Ô?". Há que se estar a favor da conversa, em tal posição que você não precise se inclinar (muito) para ouvir, em que a voz venha até você, sem precisar voltar o rosto para os conversadores. É preciso ser rápido, acompanhar a narrativa sem riqueza de detalhes, observar os pequenos gestos, as discretas mexidas na cadeira, e principalmente as lacunas deixadas nos diálogos, afinal, para quem está conversando, certos detalhes passam em branco por conhecerem o assunto todo.

Como disse, é um estágio avançado na desetiqueta social.

Hoje, ouvi preciosidades:

1.

Mesa com três "representantes" (do quê?), dois homens e uma moça jovem, mas como já "estava efetivada e era representante plena" se achava a tal. Um dos homens, atendeu ao celular e assim permaneceu durante todo o almoço, falando ao telefone, contando que aceitou um emprego pelo mesmo salário, mandou um "abraço" ao ex-chefe, porque sabia que ele não era coisa boa, e agora estava muito mais feliz, bla bla bla. Duvido.

A moça-representante-efetivada tentava convencer o outro homem, silencioso e desatento que era expert também em MPB, adoooorava Djavan, já tinha visto vários shows dele. Mas ela se referia ao Jor-ge-Ver-ci-lo, pelo exemplo da música cantarolada. hohoho. OU o cara não sabia lhufas de mpb, ou ele queria mesmo era favores sexuais da moça, por isso, passava batido a cada bobagem que ela dizia.

E ela falou de como era legal, competente, bem resolvida e principalmente bem relacionada- pasmem: ela já foi a um show e conversou com os cantores!! Quem são? Sandy e Junior! uau!!! eu quase fiquei amiga dela.

2.

Mesa com mãe e filha. Gordetas, as duas, como eu. A mãe, estilo compreensiva-durona, daquelas que "entendo que você desistiu, mas acho que devia continuar". Ela dava conselhos, a flha escutava, mas não ouviu nenhum. A filha comentou, com olhos lacrimosos, que o Lucas ia pra Alemanha, passar um ano, jogando. E a mãe comentou algo como "o que tiver que ser, será". Daí, a sábia mãe completa: "nunca é tarde pra recomeçar". Recomeçar o que, meu Deus?? Mais um pouco de conversa, descubro: a menina também fazia algum esporte (mas devia estar parada há tempo). E ela responde "tanta coisa aconteceu na minha vida, que não dá mais, mãe!" A mãe insiste na teoria, e acrescenta "se você gosta tanto disso, não deve desistir assim".

Putz, que mãe legal, né?

Mas a filha, joelho machucado, diz que não, que não. Não ia fazer/falar mais nada sobre isso.

(E eu pensando: Parabéns! Depois você vai jogar na cara da tua mãe que você é infeliz por culpa dela. Se eu tiver perto, vou lembrá-la que lá no japa, naquele dia, ela te deu o maior apoio e você amarelou. Falei, pronto.)

3. A outra mesa próxima era a menos interessante: casal em começo de namoro, sabe? Provavelmente, segundo (ou milésimo) encontro, devem trabalhar juntos, porque já se conheciam, coisa meio morninha, ela falando algum blablabla bobo de comida japonesa, do tipo, "eu não gosto de acelga no yakissoba".

(Eu, dormindo, nesse momento).

Volto a atenção pra mesa da mãe e filha:

Filha comenta que ainda gosta do tal do Lucas. Mãe suspende as sobrancelhas.
E só falta dizer pra ela se mandar a-go-ra pra Alemanha, ir atrás dele, afinal...
Mas a menina, com todo talento pra ser infeliz, responde que não, imagina... ele vai viver a vida dele, eu vou recomeçar a minha.

(Ai que nervoso!!)

Elas pedem a conta, e eu, sem esperança na felicidade da filha com o Lucas, com o esporte, com a mãe, com a vida, aproveito a proximidade do garçom e peço a minha também.

.....

Na próxima oportunidade, não se envergonhe. Peça "mesa para um". E cuide bem da vida dos outros, porque elas podem te trazer lições inesperadas numa tarde de quinta-feira qualquer.

Como sempre digo, se não aprender com os próprios erros, pelo menos aprenda com os dos outros!

3 comentários:

Alexandre Matos said...

Oi Dehbora, td bem!?
Quero dizer que o blog essa semana ta tudo-di-bão!!!!
To me acabando de rir com esse post... rsrsrsrsrsrs...
A moça se achando por ter falado pessoalmente com os cantores Sandy e Jr foi o máximo!!!!
rsrsrsrsrsrsrsrs...
Já tive a oportunidade de enquanto almoçava ouvir as conversas das mesas ao redor, é incrivel como a gente se diverte né...
ADOOOUUUREEEEII!!!!
rsrsrsrsrsrs...
Beijos e até ;)

Deh said...

Alexandre, não recomendo nadinha essa prática totalmente anti-tudo! Mas que é divertido, ah, isso é! hohohoho

Beijocas!!

Joana said...

Precisa mesmo toda uma desenvoltura pra ouvir o papo dos outros sem ser "descoberto" =P
Uma boa é escolher restaurantes pequenos com as mesas bem próximas. Praças de alimentação também funcionam bem, mas tem que ter foco. Outro bom lugar pra prática é transporte público. Muitas vezes uso o fone sem música 1) pra evitar free talkers; 2) pra disfarçar que tou comendo a conversa dos outros.
Já deu pra perceber que também sou adepta dessa deselegância, né? =D
Beijo!

Post a Comment